O “Dia de Ação de Graças” é um paradoxo histórico, cultural e espiritual. Quanto à história do feriado de Ação de Graças que hoje celebramos, qualquer aluno de qualquer escola americana em todo o mundo pode contar que, em 1621, o “Primeiro Dia de Ação de Graças” foi comemorado por peregrinos ingleses e índios americanos em Plimouth, na colônia de Massachusetts.
A primeira celebração de Ação de Graças da América, entretanto, já acontecera oitenta anos antes, em 1541, com um explorador espanhol e seus companheiros no oeste do Texas. Além disso, o dia de Ação de Graças só foi oficializado como feriado nacional dos Estados Unidos em 1863, quase 250 anos depois do “Primeiro Dia de Ação de Graças” dos peregrinos, quando, em meio à guerra civil americana, o Presidente Abraham Lincoln declarou: Eu...convido meus companheiros, cidadãos de todas as partes dos Estados Unidos e também aqueles que estão no mar ou morando em terras estrangeiras, que dediquem a última quinta-feira de novembro ao louvor e agradecimento ao nosso Pai que está no céu.” Isso nos mostra que as origens desse feriado são um pouco mais complexas do que muitos de nós foram levados a crer.
Culturalmente, o Dia de Ação de Graças é frequentemente considerado o feriado americano mais importante. O Dia de Ação de Graças reúne imagens, paladares e experiências tipicamente americanas: peregrinos e índios, peru e recheio, torta de abóbora, geléia de mirtilo e, é claro, adormecer enquanto se assiste a um jogo de futebol americano na TV.
Celebrações de agradecimento nas comunidades são tão antigas e tão abrangentes quanto a própria civilização. Desde a primeira caça bem sucedida e da primeira grande colheita, os homens têm se reunido para agradecer e comemorar a boa sorte. Festivais, rituais e tradições de “dar graças” são bastante documentados no Egito antigo, na Grécia, em Roma e na China e continuam a ser importantes acontecimentos de praticamente todas as sociedades ao redor do mundo. Isso significa que a celebração do “Dia de Ação de Graças” é somente um pequeno capítulo da história da humanidade no que se refere a expressões de agradecimento comunitário. |
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Finalmente, vamos refletir um momento sobre o aspecto espiritual deste feriado. Através da história, dos antigos gregos à declaração de 1863 de Abraham Lincoln, as celebrações de agradecimento estiveram ligadas a religiões e até a específicos deuses ou deusas. É interessante notar que, apesar disso, na sociedade americana atual, o dia de Ação de Graças tornou-se um feriado secular. Diferentemente do Natal, Páscoa, Hanukkah ou Ramadan, ele não está ligado a qualquer religião; não é uma festa ou feriado de uma igreja em particular; e não exige que se tenha determinados valores, crenças ou qualquer prática religiosa. Tudo que ele exige é nossa humanidade e é aqui que encontramos o mais impressionante e profundo paradoxo: apesar de ser independente de qualquer doutrina religiosa, o Dia de Ação de Graças é o único feriado capaz de reunir espiritualmente todas as pessoas através do tempo e espaço. Isso é possível ao se invocar uma das mais importantes qualidades humanas: a gratidão. Paradoxalmente, é nessa qualidade não religiosa, ainda que poderosa virtude de gratidão que residem os fundamentos de todas as crenças e práticas religiosas ao redor do mundo hoje. É a gratidão que nos faz perceber em nossos corações que um Deus amoroso e generoso está presente em nossas vidas. É a gratidão que nos faz procurar uma aproximação com Deus através da oração. E é a gratidão que nos leva ao outro para compartilhar nossa espiritualidade através desse culto secular comunitário.
Para terminar, permita-me partilhar com os senhores uma pequena citação de um escritor americano do século XX, chamado Edward Sandfort Martin. Ele escreveu: “O Dia de Ação de Graças, por lei, ocorre uma vez ao ano; mas para o homem honesto, ele ocorre com a frequência que o seu grato coração o permita.”
Obrigado pela sua presença esta noite. Desejo-lhes um feliz Dia de Ação de Graças, hoje e sempre.
Rio de Janeiro, novembro de 2011
Josh Rundle |
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